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26 de maio de 2014

I miss the old me

Hoje de manhã,  eu fiquei um bom tempo deitada na cama, quieta, pensando.

Olhei para as estrelas florescentes no teto, quase invisiveis por causa da luz do dia, e pensei na morte. Na solidão.  Imaginei o espaço, imaginei a imensidão,  o vazio eterno.

Senti dificuldade em respirar e pus a mao na barriga, senti aqueles ossinhos que ficam em evidência quando se está mto magra. Perguntei-me onde estava a menina que achava isso horrivel e conclui que ela desapareceu junto com a que era feliz. Apertei meu estomago e senti que precisava emagrecer mais.

Olhei para a janela, na brecha em que a cortina estava aberta e eu podia ver o ceu la fora amanhecendo. Pensei na Emy (por que nao digo simplesmente "Ana"? Por que criei uma personagem pra ela? Nao consigo lembrar). Pensei em tudo oq poderia acontecer daqui pra frente. Tentei imaginar minha vida em Londres sem ela. Ainda quero ser capaz de fazer isso sem ela, mas ja nao sei de mais nada. Ja nao sei se estou disposta a construir uma vida sem ela.

Fechei os olhos e tentei dormir. Mas aquela foto preto e branco em que o corte foi tao profundo que via-se a carne nao saia da minha cabeça. Estava me dando ansia de vômito.

Pensei em Lilie. E em todas as contas do instagram que visitei ontem. Pensei em como não quero ser igual àquelas pessoas mas como ja estou perto os suficiente para me identificar com elas. Por que Lil me ofereceu ajuda se nem ela está bem? Se sou uma completa estranha? Senti compaixao por ela, senti que ela merecia ajuda.

Ao contrario da maioria das contas que encontrei ontem, Lil nao posta fotos de suas cicatrizes. Ela nao gosta. Ela se acha ainda mais feia com elas. Ela merece ser feliz. Ela precisa de ajuda. Nao sei como ajuda-la quando nem eu mesma estou bem.

Voltei a imaginar jeitos para me suicidar e a pensar nas consequencias e no meu corpo frio.

Pensei naquele garoto que postou a foto do corte mais profundo de sempre. Pensei em como o corte nao era dele e em como ele foi casual em legendar a imagem.

As palavras de Emy ecoaram: "isso é ridiculo". Nao muda nada, nao faz diferença,  nao resolve as coisas. Entao, por que? Esquecer e esquecer e esquecer. Esquecer nao é a solução, as coisas vao voltar mais cedo ou mais tarde. "Mas aí é só cortar de novo. E quanto mais fundo, mas tempo essa ilusao de problema resolvido dura"

Imaginei-me levantando e indo ate a cozinha buscar a faca para responder a pergunta.

Tentei imaginar oq meus pais diriam se vissem.

Fui ate a cozinha.

Arrumei as coisas na mesa para parecer que eu tinha tomado café da manhã e entao me tranquei no banheiro.

Nao peguei a faca, mas estava com a gilete e aquele negocio que eu smp esqueço o nome q serve pra tirar a cuticula. Raspei as pernas. Sentei no chao. Arranhei a ponta afiada do "retirador de cutila" na palma da minha mao. Imaginei o sangue jorrando,

Senti vontade de chorar.

 Nao chorei.

Pensei em Emy e Maria e Lili. No que elas tem em comum. Em como nao posso ser amiga de nenhuma delas.

Elas tem jeitos de falar cmg. Elas podiam ter mandado mensagens. Elas nao querem falar cmg. Estao mto bravas. É melhor assim. Minha vida é tao vazia sem elas. Quero que Emy seja minha melhor amiga de volta. Quero que volte a ser como no MSN. Preciso dela. Nao posso te-la. Nao posso. Nao é possivel. Preciso ser forte. Preciso falar com Lil. Nao posso falar com ela. Preciso que ela me entenda. Nao posso nao posso nao posso. Preciso. Mas nao posso. Nao vou.

Lembrei doq o João me disse, sobre eu estar enganada sobre mim. Pensei em como dps disso ele mal estava online. Pensei na saudade que sinto do abraço dele. Pensei na sua voz, na sua risada e consegui sorrir levemente. Imaginei nós dois juntos e precisei parar pois isso nunca aconteceria e mais machucada eu nao precisava ficar.
"Entao sim, eu vou chegar perto de você". Nao, meu amor, você nao vai.

Ninguém mais vai. Eu nao vou magoar mais ninguém.

Pensei no ceu nublado la fora e pensei "e se o sol nunca mais aparecer?". Tive medo. E se nunca mais me sentisse bem? E se?

Minha mae acordara.

Pensei em sair do banheiro e abraçar. Eu precisava de um abraço bem apertado. Mas nao conseguiria isso sem chorar.

"Clara?" -ela sussurrou batendo na porta. Pensei "e se eu nao responder?" Imaginei-me morta. E ela abrindo a porta a força e a porta batendo no meu corpo inerte deitado no chao. Imaginei ela gritando e chorando desesperada e acordando meu pai.

"Clara?" - ela chamou mais alto.

"Hum?" -respondi, com medo deq qqr palavra desencadeasse um berreiro

"Vc vai levar pao ou biscoito pra escola?"

"Pao"

"Ta. Nao demora aí viu"

Olhei para a porta e ouvi seus passos se afastarem. Olhei para o teto e foquei o olhar na lampada ate que os olhos doessem. Pensei em levantar, mas simplesmente nao havia motivos. Queria deitar ali mesmo e dormir pra sempre.

Mas segurei na pia e me puxei pra cima. Fiquei de pé. Olhei meu rosto no espelho e apertei a palma das maos contra meus olhos com força.

Eu tinha que ir pra escola. Tinha que sorrir e fingir que eu era uma adolescente comum e feliz.

Lavei o rosto e escovei os dentes. Molhei a nuca e os pulsos para o caso de pressao baixa.

Fui para a escola.

Agora estou com os fones noa ouvidos enquanto meus pais brigam. Estou tentando nao chorar. Estou tentando ser forte mas é dificil quando nao se come ha mais de 12 horas.

Pensei em porque continuar vivendo. Pensei na força de vontade que eu nao tinho para continuar lutando.

Pensei noq pensei ontem quando vi aquelas fotos: "nao quero isso pra mim. Nao quero chegar a esse ponto. Nao quero. Nao quero. Tenho medo de voltar a depressão.  Tenho medo deq se voltar, nao consiga sair nunca mais"

Pensei nas mentiras que vi nos comentaroos das fotos da Lil.  Coisas como "vc é linda" e "stay strong" e "eu te amo" e "eu me preocupo" e "por favor pare" "nao faça mais isso" "estou aqui por vc" "vc é perfeita" "para com isso, ha alguem aqui que te ama". E sei que ela sabe que é mentira, que nenhum deles a ama pq nao a conhecem. Estao tentando ajuda-la mas ela nao quer ajuda. Estao tentando faze-la parar, mas ela nao tem motivos para parar. Tenho vontade de saber como é abraçar um esqueleto.

Sei que ela sabe que é mentira, mas sei como ela está dividida entre acreditar naquilo pq ela quer que seja verdade ou encarar a verdade deq aquilo é mentira.

Quero q ela saiba que quero ajuda-la. Que quero fazer o dia dela valer a pena. Mas nao sei como. Quero que ela continue me descrevendo naquelas fotos.

Quero poder olhar pra conta dela e dizer que nao me identifico.

Nao quero ser anorexia. Nao quero ser suicida.  Nao quero ser depressiva. Mas ja sou.

Me tranco num quarto sem saída, sem luz do sol. Tenho uma faca, um bolo de chocolate e uma foto antiga minha sorrindo. Deixo tudo em cima da cama e me sento num canto escuro. Nao quero escapar. Ao mesmo tempo nao quero ser eu naquele quarto.

Olho para as minhas fotos e meus sorrisos e quanto mais eu olho mais falso fica.

Penso no que Emy está fazendo agora. Me pergunto se ela ja abriu o whatsapp e pensou em me mandar uma msg nesses três dias que nao falamos. Pergunto-me se ela sorriu hoje, se é um bom dia, se ela está feliz. Sinto vontade de chorar. Preciso repetir sem parar que ela está melhor sem mim.

Penso em Lilie. E quero perguntar se ela conseguiu enganar a mae e matar aula.

Olho para o meu boletim e eu nao quero continuar nisso.

Eu nao quero.

Estou mto fraca para ficar de pé.

Mas talvez eu possa engatinhar.

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